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Relatos de 1920: a grippe epidemica na cidade de São Paulo

Em 1920, o Serviço Sanitário do Estado de São Paulo publicou o relatório A Grippe Epidemica no Brazil e especialmente em São Paulo. Em seiscentas e cinquenta e quatro páginas, os médicos Carlos Luiz Meyer, Diretor da Demografia Sanitária, e Joaquim Rabello Teixeira, Diretor da Secretaria do Serviço Sanitário, com prefácio de Arthur Neiva, relatam, com dados e informações, os fatos desenrolados no país durante os meses da pandemia de gripe em 1918 - hoje considerado uma das mais importantes publicações sobre o desenvolvimento da epidemia da gripe espanhola em São Paulo e em todo Brasil.

De acordo com o relatório,

“Os primeiros casos de gripe epidêmica conhecidos tiveram lugar, a 9 de Outubro, em pessoas do Hotel d’Oeste, situado no Largo São Bento, nesta Capital, onde se hospedaram diversos amadores do jogo de foot-ball, procedentes do Rio de Janeiro e que já traziam incubada a moléstia, que aqui veio a se manifestar”. (Meyer, p.4)

Sobre a epidemia que se iniciava ali, o diretor geral Arthur Neiva escreveu no primeiro parágrafo do prefácio: “O historiador que, no futuro, procurar descrever as principais epidemias que assolaram o Brasil, com muita dificuldade poderá fazer ideia da formidável calamidade que foi a gripe epidêmica.”(p.III). Os jogadores haviam chegado a São Paulo em 9 de outubro de 1918; no dia 13, o primeiro infectado deu entrada no Hospital de Isolamento de São Paulo (hoje Emílio Ribas) e a calamidade começou.

A epidemia alterou profundamente a dinâmica da capital paulista. Entidades como a Cruz Vermelha, a Liga Nacionalista, a Associação Brasileira de Escoteiros e as associações religiosas – todas privadas – se juntaram ao esforço para combater a gripe. Os hospitais como a Santa Casa de Misericórdia e a Beneficência Portuguesa também participaram desse esforço. Neiva mobilizou o Serviço Sanitário no município para prestar assistência domiciliar aos enfermos e mandou instalar 40 hospitais provisórios: em colégios, associações, prédios religiosos e edifícios públicos O Serviço instalou um desses hospitais na Hospedaria dos Imigrantes, importante ponto de fluxo de pessoas na cidade.

Para dirigir os hospitais provisórios, Neiva recrutou Arnaldo Vieira de Carvalho, na época diretor da Faculdade de Medicina e anteriormente diretor do Instituto Vacinogênico (1892-1913), órgão do Serviço Sanitário incorporado mais tarde, em 1925, pelo Instituto Butantan. Alunos e professores da Faculdade atenderam nos hospitais e nos 44 postos de socorro montados em geral ao lado dos hospitais.

Da primeira notificação, a 13 de outubro, até o final do mês de dezembro, o Serviço Sanitário registrou 116.777 casos de gripe, com 5.331 mortes. Os autores informam no relatório que esse total apresentava uma discrepância com os números do Registro Civil, que registraram a morte de 6.861 pessoas no período. Assim, os autores estimaram que 1.972 óbitos haveriam escapado à notificação do Serviço Sanitário.

Desde 13 de outubro, a pandemia de gripe de 1918 adoeceu um quinto da população paulistana: 29.900 casos em outubro, 86.366 casos em novembro e 511 em dezembro, assinalando o declínio da epidemia na cidade.

Em 26 de outubro de 1918, a Câmara Municipal de São Paulo autoriza o Prefeito Washington Luís a tomar todas as providências necessárias à assistência pública para combater a “pandemia reinante”. Serrarias e carpintarias voltaram-se para a fabricação de caixões; as tabelas de preços do serviço funerário foram suspensas enquanto durasse a epidemia e foram fornecidos caixões e transporte gratuito para enterros aos que não possuíam recursos. Em 18 de novembro, a prefeitura desapropriou um terreno para a expansão do cemitério do Araçá, em função da quantidade de mortes causadas pela gripe.

Passados 100 anos, nunca mais a gripe voltou a assolar São Paulo como em 1918. A vacina contra o vírus da influenza é um instrumento na prevenção de outra pandemia como a da gripe espanhola.

Fontes

BERTOLLI FILHO, C. Epidemia e sociedade: a gripe espanhola no município de São Paulo. 1986. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1986. 484p.

MEYER, C. L.; TEIXEIRA, J. R. A grippe epidemica no Brazil e especialmente em São Paulo. São Paulo: Casa Duprat, 1920.

GOULART, A. C. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. Hist. Cienc. Saúde-Manguinhos [online]. 2005, vol.12, n.1, pp.101-142.

SÃO PAULO (Município). Resolução n. 131, de 16 de outubro de 1918. Autoriza o Prefeito a tomar todas as providências necessárias à assistência pública, relativamente a pandemia reinante. Câmara Municipal de São Paulo [online], São Paulo, SP.

SÃO PAULO (Município). Ato n. 1.274, de 7 de novembro de 1918. Suspende, enquanto durar a epidemia, as tabelas de preços e classes para a execução do serviço funerário, e dá outras providências. Câmara Municipal de São Paulo [online], São Paulo, SP.

SÃO PAULO (Município). Ato n. 1.278, de 18 de novembro de 1918. Declara de utilidade pública, para desapropriação judicial, uma área de terreno necessária ao aumento do cemitério do Araçá, em função das mortes causadas pela epidemia. Câmara Municipal de São Paulo [online], São Paulo, SP.