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A epidemia no Brasil

A ameaça da Gripe Espanhola alcançou o Brasil por via marítima em setembro de 1918, com o retorno de uma expedição naval enviada ao Dakar (África Ocidental), como participação na 1ª Guerra Mundial. Segundo as informações da época, mais de uma centena de marinheiros infectados morreram. A disseminação do vírus no território do país também foi facilitada pela chegada de outros navios vindos da Europa, que aportaram em Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

Em pouco tempo a Gripe atingiu várias cidades da região Nordeste e a partir de outubro de 1918 outros casos já tinham sido registrados nas grandes cidades do país, como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.

Durante a pandemia, foram mais de 35 mil mortes registradas no Brasil: 12.700 no Rio de Janeiro, 6.000 em São Paulo, 1.316 em Porto Alegre, 1.250 em Recife e 386 em Salvador.

Na época, não se conheciam as medidas que poderiam prevenir o contágio. Nos jornais, as autoridades recomendaram que a população evitasse as aglomerações e o contato com doentes, além de pedir que as pessoas não chamassem os médicos para consultas, a não ser nos casos graves.

O momento crítico chegou em outubro de 1918, quando as famílias que sobreviveram ao vírus abandonaram as cidades. Nesse período, o sanitarista Carlos Chagas entrou em cena para liderar o combate à doença, implantando 27 pontos de atendimento à população no Rio de Janeiro, então capital federal.

Mesmo com tais medidas, 65% da população do Rio de Janeiro adoeceu entre outubro e dezembro de 1918, deixando um rastro de óbitos pelo caminho.

Embora a gripe espanhola tenha efetivamente atravessado toda a pirâmide social, a maioria das vítimas provinha das camadas populares. De todo modo, a doença vitimou Rodrigues Alves, que havia sido reeleito para a presidência da República em março de 1918. Em seu lugar, em 15 de novembro, tomou posse Delfim Moreira. Rodrigues Alves morreu em janeiro de 1919.


Legenda: Carro alegórico retratando o Chá da Meia-Noite para satirizar o boato de que a Santa Casa distribuía um chá envenenado aos doentes da Gripe Espanhola (Foto: Acervo da Biblioteca Nacional).

O Carnaval dos sobreviventes

O Carnaval de 1919 foi a resposta das ruas do Rio Janeiro à mortandade deixada pela gripe – o primeiro carnaval com samba. "Era como se o carioca descobrisse finalmente a trilha sonora ideal para os corsos de carros abertos e para as batalhas de confete”, escreveu o jornalista Ruy Castro no livro “A vida de Nelson Rodrigues”, sobre os foliões que tomaram as ruas da cidade, na tentativa de expulsar a trilha de cadáveres que o vírus deixou pelo caminho.

O que se viu durante os cinco dias do Carnaval de cem anos atrás ficou registrado no samba “E o mundo não se acabou”, de Assis Valente, gravado por Carmem Miranda em 1938. A letra faz referência ao cenário apocalíptico que se instalou durante a pandemia:

"Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar... acreditei nessa conversa mole/Pensei que o mundo ia se acabar/E fui tratando de me despedir/E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei na boca de quem não devia/Peguei na mão de quem não conhecia/Dancei um samba em traje de maiô/E o tal mundo não se acabou... Ih! Vai ter barulho e vai ter confusão/ Porque o mundo não se acabou".

Hoje em dia, com os avanços e melhorias de campanhas e ações de saúde pública, é possível impedir que a circulação de um vírus instaure um cenário como o enfrentado entre 1918 e 1920. Dessa forma, cem carnavais depois, aqui estamos para comprovar que o mundo, de fato, não se acabou - graças às vacinas.