POR QUE SE VACINAR

Sarampo em Roraima e no Amazonas

O sarampo andava, em abril deste ano, por 11 países americanos – entre eles, os Estados Unidos, a Colômbia, o Brasil, Equador, Canadá e Venezuela. Para a Organização Panamericana de Saúde, o problema principal localizava-se justamente neste nosso vizinho, a Venezuela, onde se concentram os casos, e de onde casos se espalharam.

Distribuição de casos confirmados de sarampo no nível sub-nacional na região das Américas, 2018 (Fonte: Relatório de Vigilância dos países enviado pela unidade do PAHO/WHO e o Ministério do Poder Popular da Venezuela).

Em 2018, diz a Organização Pan Americana de Saúde, nesses 11 países de nosso continente, houve 385 casos confirmados de sarampo. Deles, 279 – 7,2 em cada dez – eram casos venezuelanos. O Brasil vinha em segundo lugar, com 46 casos confirmados – dos quais 34 em Roraima, por onde os imigrantes venezuelanos entram no país. Os Estados Unidos, com 41 casos, estava em terceiro lugar – embora todos os seus casos tenham originado de pessoas vindas de outros países.

A proximidade entre o surto de sarampo na Venezuela e o estado de Roraima é a maior possível: o foco do surto está no Estado venezuelano de Bolívar e neste estado, o município mais afetado é o de Caroní. O município está na região do mapa em que a mancha vermelha é maior. Caroní está no começo de uma estrada de rodagem que atravessa todo o estado de Bolívar, de Norte a Sul, e aponta para Boa Vista, a capital de Roraima; por ela chegam os refugiados da crise da Venezuela. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o surto começou lá em julho de 2017.

Em fevereiro de 2018, o primeiro caso suspeito apareceu em Boa Vista. Para as autoridades de saúde, um caso deve ser tratado como suspeito de sarampo quando a pessoa tem manchas vermelhas pelo corpo (chamadas de exantemas, razão pela qual o sarampo é classificado como “doença exantemática”) e febre; e, além desses, mais um entre três sintomas: ou tosse, ou coriza, ou conjuntivite. Pois o Ministério da Saúde relata na nota informativa:

“Em 14/02/2018, a Secretaria de Saúde do Estado de Roraima (SES/RR) notificou ao Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS) do Ministério da Saúde um caso suspeito de sarampo, no município de Boa Vista/RR. Tratava-se de uma criança, 1 ano de idade, venezuelana, não vacinada, que apresentou febre, exantema, acompanhado de tosse, coriza e irritação ao redor dos olhos, sendo confirmado por critério laboratorial”.

Quem mais sofre com a doença, que pode matar de pneumonia em casos graves, são como essa jovem venezuela: menor de um ano de idade, talvez desnutrida, e não vacinada, como registra a nota.

A vacina contra o vírus do sarampo existe desde 1963, e seu uso sistemático resultou no controle, senão de todos os casos de sarampo, pelo menos da ameaça que a doença já representou para a mortalidade infantil. Mas demorou de 1963 a 2016 para a Organização Panamericana de Saúde poder declarar a região das Américas “livres do sarampo”. No Brasil, por exemplo, antes do surto atual, nenhum caso de sarampo havia sido registrado desde 2015, quando ocorreu um surto muito concentrado no Ceará, estado “sede” por 212 dos 214 casos confirmados; os outros dois aconteceram em São Paulo.

Na atualização sobre o sarampo que a OPAS divulgou dia 6 de abril, havia registros de casos também fora de Roraima. Entre os 46 casos confirmados, quatro haviam acontecido no estado do Amazonas. Entre esses quatro, todos brasileiros, três nunca haviam sido vacinados. Dos 42 casos de Roraima, 34 ocorreram em venezuelanos; entre eles, morreram duas crianças, já em Boa Vista. Desse grupo de pessoas, 16 eram indígenas, da etnia Warao. Os outros oito afetados eram brasileiros.

Entre as dificuldades que o sarampo coloca para os sistemas de saúde está o fato de ser, nas palavras usadas nos comunicados, “extremamente contagioso”. Essa é uma das razões pelas quais para eliminar a circulação do vírus do sarampo, a cobertura pela vacina precisa ser muito ampla – de 95%. A crise que a Venezuela atravessa tem sido responsabilizada pela falha no programa de vacinação. Na ação para conter o surto e interromper o contágio, as autoridades brasileiras de saúde aplicaram a vacina do sarampo a todos entre seis meses e 49 anos de idade em Roraima; mas, na fronteira com o estado de Bolívar, a vacinação inclui também a tríplice oral, a febre amarela, a dupla adulto e a DTP. Venezuelanos ou brasileiros, todos ficam vulneráveis ao sarampo – e a outras doenças – quando faltam as vacinas.

Casos notificados de sarampo nos Estados de Roraima e Amazonas, de 1 de Janeiro a 30 de Março (Fonte: Ministério da Saúde do Brasil).