POR QUE SE VACINAR

Por que se vacinar?

Carolina Luísa Alves Barbieri

Médica pediatra e docente no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva na Universidade Católica de Santos

Por muitas razões, que podem ser diferentes para cada uma das doenças que evitam, as vacinas são reconhecidas pelo sistema de saúde como a forma de prevenção de infecções que só perde em efetividade para a universalização do saneamento básico e da água tratada. As diminuições nas taxas de mortalidade infantil e de adultos nas últimas décadas se devem ao uso das duas estratégias combinadas. Nem mesmo os antibióticos teve efeito maior na redução da mortalidade e no crescimento da população mundial.

Neste 2018, há 14 doenças que foram controladas, ou podem vir a ser controladas, por meio de vacinas: varíola, difteria, tétano, febre amarela, coqueluche, poliomielite, a doença causada por Haemophillus influenza tipo b, sarampo, caxumba, rubéola, febre tifoide, rotavírus, raiva e hepatite B. Dentre todas, a varíola está erradicada e a poliomielite está no mesmo caminho.

Nas Américas, desde 2015, a rubéola materna e também a do bebê desapareceram. Raramente acontecem surtos – no entanto, em 2018, as autoridades de saúde pública notaram o aumento de casos de caxumba e, no norte do Brasil, aconteceram até abril inúmeros casos de sarampo, em razão da chegada de crianças da Venezuela.

Ideia antiga

A iniciativa de usar algo da doença para se proteger dela coube aos chineses dos séculos 11 e 12, que consistia em aspirar o pó preparado a partir de restos das feridas causadas pela varíola como forma de evitar a doença. Somente após o ano de 1720 que os europeus introduziram tal método no continente, conhecido por variolação. A partir desse mesmo princípio, Edward Jenner, médico inglês desenvolveu em 1798 a primeira vacina, uma variação mais eficaz da invenção chinesa. Com a incorporação, em 1925, do Instituto Vacinogênico, o instituto Butantan, incorporou a técnica da vacina jenneriana, antivariólica, que se aplicava em São Paulo desde 1811.

Assim, a palavra vacina — do latim vaccinus, de vacca (vaca), nasce com Jenner: o médico observou que algumas mulheres que ordenhavam vacas eram imunes à varíola, por terem se contaminado com o cowpox (doença benigna do gado semelhante à varíola) e a partir daí fez inoculações da doença em humanos, provando que esse método induzia a imunidade à doença.

A perseverança de muitas gerações de pesquisadores produziu significativas melhorias na segurança e na eficiência da vacina antivariólica, que permitiram a disseminação da vacinação e a erradicação da doença.

A proteção da vacina

A vacinação promove uma proteção individual, pois gera na pessoa vacinada uma resposta de defesa imunológica duradoura com produção de anticorpos contra o microrganismo que se quer proteger. Além disso, quando a vacinação é feita em massa para a população, como nas campanhas brasileiras contra a varíola, e desde a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 1973, ela promove uma proteção coletiva chamada “imunidade de rebanho” – uma imunidade coletiva, que é maior que a soma das proteções individuais. Essa forma de imunidade beneficia indiretamente os não vacinados, por interromper a circulação do microrganismo (vírus ou bactéria) no ambiente. Graças a essa estratégia, conseguimos: erradicar a varíola em 1979; não registrar nem um caso de poliomielite no Brasil e nas Américas desde 1990 e ter casos controlados de sarampo, meningite e tétano.

No Brasil a cobertura vacinal vem aumentando nestes 45 anos de PNI. No país, predomina uma “cultura de imunização”. Desde os anos 2000, no entanto, alguns centros urbanos mostraram uma cobertura vacinal mais baixa – em especial nos estratos mais ricos e escolarizados, quando se compara o nível de adesão da população de maior vulnerabilidade socioeconômica. Esta é a situação em que podem ser gerados bolsões de falha vacinal e o reaparecimento de certas doenças. Apesar da problematização da vacina por pessoas e grupos específicos no país parecer não se configurar como movimento antivacinação como em países desenvolvidos, é importante conhecermos as singularidades da hesitação à vacina no contexto brasileiro, que ainda é pouco aprofundado.

Evento como os “100 anos da Gripe Espanhola” do Instituto Butantan para crianças, pais, educadores, professores, pesquisadores e acadêmicos permite ampliar o debate sobre o tema e esclarecer eventuais dúvidas, inseguranças ou desinformação sobre as vacinas.

Resistência às vacinas e hesitação frente à vacinação

Apesar dos avanços tecnológicos das vacinas e dos benefícios históricos conferidos pelas práticas de vacinação em massa, há grupos que têm mostrado resistências a se vacinar, especialmente a partir do final dos anos 1990. Em países da Europa e nos EUA, esses grupos se organizam para disseminar informações contra a vacinação, que atacam sua segurança e também sua eficácia. Esses conteúdos circulam o mundo e espalharam globalmente a desconfiança sobre a vacinação.

Para compreender a tendência, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs em 2014 o termo hesitação à vacina (do inglês Vaccine Hesitancy) e criou um grupo de trabalho denominado WHO SAGE Vaccine Hesitancy Working Group que busca compreender esse fenômeno nos diferentes contextos, suas formas de expressão e seu impacto. A OMS define hesitação à vacina como “atraso na aceitação ou recusa das vacinas, apesar da disponibilidade de serviços de vacinação” e a entende como um “fenômeno complexo, de contexto específico, que varia conforme o tempo, local e as vacinas”.

Além da questão da confiança — nas vacinas, no sistema de saúde e nas decisões políticas —, a OMS chama a atenção para outros dois fatores que podem levar à hesitação: a complacência que envolve a percepção de risco e benefício da vacina, a adesão a outras concepções de promoção à saúde/proteção de doenças e a conveniência que diz respeito à disponibilidade, acessibilidade e disposição à vacinação. Este modelo é conhecido por 3Cs.

Vacinas protegem?

Vacinas, para serem aceitas como tal pela Organização Mundial de Saúde, são altamente eficazes – ou seja, cumprem seu papel de proteger quem se imunizou em 95 a 99,99% dos casos.

Porque preciso vacinar as crianças para doenças como a poliomielite, já controlada no Brasil?

A poliomielite, ou paralisia infantil, está eliminada nas Américas desde 1990. Mas há ainda países em que a doença é endêmica, como Afeganistão, Paquistão e Nigéria. A vacinação precisa ser mantida por isso: o vírus está circulando e pode chegar às Américas. Em caso de alguma falha de cobertura, poderia fazer reaparecer essa doença que deixa tantas consequências.

É o que você quer? Claro que não. O fato é que toda vigilância é pouca: estão aí o surto de sarampo no Norte do Brasil e da caxumba nos Estados Unidos.

A vacina MMR (sarampo-caxumba-rubéola) causa autismo? É verdade?

Definitivamente não. Estudos científicos sérios no mundo todo não mostraram associação entre a vacina MMR com autismo. Países que introduziram em seu calendário básico a vacina de MMR não elevaram a incidência de autismo. Essa informação equivocada foi fruto de um estudo fraudulento divulgado na Inglaterra em 1998 e desmascarado em 2011.

As vacinas podem gerar efeitos adversos?

A maioria das vacinas podem gerar em uma pequena porcentagem de pessoas eventos adversos leves no local da aplicação ou sistêmicos como mal-estar ou febre. Essas manifestações são sobretudo fruto da resposta imunológica do corpo reagindo às vacinas e produzindo anticorpos. Eventos graves como anafilaxia entre outros são extremamente raros e contraindicam doses posteriores desta vacina. A presença de efeito adverso pós vacinação (EAPV) deve ser notificado e é sistematicamente monitorado pela farmacovigilância.

Preciso vacinar se tenho um modo de vida saudável?

Famílias que têm um modo de vida saudável como estímulo ao aleitamento materno, alimentação saudável e prática de atividade física podem prevenir ou postergar alguns processos de adoecimento e proteger a saúde. Porém, algumas doenças imunopreveníveis como meningite, tétano, poliomielite, hepatite B, por exemplo, têm uma história natural que pode culminar em sequela, complicação e às vezes óbito, mesmo diante de hábitos saudáveis. Essas características indicam que a melhor forma de proteção para as doenças imunopreveníveis é mesmo a vacinação.

Referências

Barata RB et al. Socioeconomic inequalities and vaccination coverage: results of an immunisation coverage survey in 27 Brazilian capitals, 2007-2008. J Epidemiol Community